terça-feira, 30 de setembro de 2008

Trem, tudo bem



...pra te dizer que consegui,


Que está tudo bem,


Que alcancei o trem que te liguei.


Volta a dormir.


Ela me disse isso e desligou com um beijo,


E havia deixado sua blusa,


E nela esquecido seu cheiro,


Adormeci com isso na cabeça,


E com sua blusa sobre o peito.



domingo, 21 de setembro de 2008

Saudades de ti




Ela disse:

Saudades de ti no meu banheiro,

Num domingo, fazendo a barba.

Saudades do teu cheiro nos meus lençóis,

Pela casa...


Saudades de te ver na minha sacada,

Fumando e fazendo planos para o futuro,

Saudades dos teus chinelos perto dos meus,


Saudades dos dias que nunca eram iguais,

Das noites tão diferentes, sem fim,


Dessa música que está sempre ao teu redor,

Dos teus dedos estalando,

Da tua voz,

Dessa tua temperatura quente, absurda...


Sinto saudades de te saber e de te sentir por perto,

Ainda assim, me sinto feliz, só de pensar:


Que meus olhos estavam abertos,

Que meu nariz roçava tua pele, teus pêlos,

Que minhas mãos...

Que minha boca...

Que meus cabelos...


Que meu coração bateu tão forte enquanto isso,

Enquanto isso, e ainda...



sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Teatro de Faz-de-Conta


Quero te ver,

Acho que poderia te amar,

Desta vez.

Mas é ficção,

Ou não é uma verdade completa.


Gosto é da forma como a luz reflete em ti,

Ou das tuas cores, como dizem.


Me apaixonei uma vez,

Pelo faz-de-conta que pensei pra nós,

Esqueci foi de te contar,

Tu, esqueceu de participar...


Gosto é do jeito que teu corpo se mexe,

quando caminha pra mim,

entre as cenas.


Me apaixonei uma vez,

Pela personagem que vesti com teu corpo,

Esqueceste foi de atuar,

Esqueci de dirigir,

Deixamos - os dois - de ensaiar...



quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Fecha.dura



‘Fique um pouco mais’

Quis dizer, mas já era tarde...

Era meses depois.


E depois, ela parecia tão aliviada quando se foi,

Foi o que pensei, só o que consegui pensar, estático, vendo nossa porta bater.

Depois seus passos lentos no corredor,

Ainda ouvi a porta do elevador se fechando,

Mas...era meses depois.



quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Camuflagem




Tenho teus dedos na minha boca,

Teu sal,

Teu gosto, mas...


Vou ter de te esconder,

Para sempre,

Te esconderei dos meus olhos,

Sob minhas pálpebras,

Sob minha barba,

Em frente ao meu nariz,

Mas teu cheiro...


Vou ter de esquecer tuas palavras,

Teus gemidos,

Tuas risadas,

Porém, sei que além disso,

Terei de esquecer,

Minhas risadas,

Meus gemidos,

Minhas palavras,

Pra ti...


Vou ter de deixar de lado a sensação,

Que tive,

Quando contigo, pensei num suspiro:


Nunca vou precisar te esquecer,

Te esconder,

Te perder...


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Bilhete de Embarque



H
avia uma coisa, nunca te contei, nos tantos vôos que peguei, na hora de preencher o verso do bilhete de embarque, com o nome de alguém para contato, era teu nome que eu colocava, sempre.
Grau de parentesco: Esposa.

Se um dia acontecesse alguma coisa, queria que tu soubesse. E teu número, que nunca consegui decorar, eu pegava na tecla de discagem rápida do celular, número 3.


Hoje, instintivamente, levei a mão ao celular, coloquei a primeira letra do teu nome no bilhete e veio esse filme na frente dos meus olhos.


Acabei deixando o bilhete sem preencher.


Quase perco tudo:

a bagagem,

o vôo,


a cabeça...


domingo, 7 de setembro de 2008

Contrastes / Completos




Quanto mais complexo eu tentava ser,

Pra me fazer entender,

Era no meu simples que tu encontrava o sentido.


Quanto mais fundo eu ia, em meus mergulhos,

Pra me encontrar,

Era na minha superfície que tu fazia a verdade vir à tona.


A felicidade, que eu, inquieto, corria o mundo pra buscar,

Estava nas tuas mãos,

Nos teus braços,

Eu não conseguia enxergar...



quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Coleções



Coleciono livros que nunca vou ler,

Guardo e enumero milhares de músicas que não vou ter tempo de ouvir,

Emparelho frases que amanhã não farão nenhum sentido,

Filmes, jogos, chaveiros, fitas do Nosso Senhor do Bom Fim...


Coleciono horas de sono, que nunca vou dormir,

Idéias revolucionárias que esqueço de colocar no papel,

Sonhos reveladores, esquecidos na manhã seguinte...

Sites, moedas, planos, selos, recortes, notícias...


Parece que preciso catalogar, organizar, guardar o mundo em mim,

Protegê-lo,

Pra que ele possa te receber,

Pr’o dia em que você chegar...



segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Despidos



Me olhe com os olhos despidos,

E me acolha, se ainda assim lhe convier,

Com o sim e o não,

Como a verdade e a ilusão que sou,

Como o preto e o branco,

Como o fim e o início onde estou,

Me respire, me toque e me atinja,

Me persiga, me devore e me inunde,

Com este oceano represado de mulher,

Com essa ventania incessante,

Que teu corpo liso e macio me reserva,


Depois feche a porta,


Depois apague a luz,


E me durma, e me sonhe, e me acorde,


E no bom dia, me beije a boca com tua boca despida,

E me acolha novamente, se ainda assim nos convier...



domingo, 31 de agosto de 2008

Tua Presença



Sabe, você tem um jeito assim que encanta,
Em meus pensamentos nublados,
Lá está você,
Jogando pra longe o tempo ruim.

É sempre assim, tua lembrança me socorre.

Com você por perto é sempre aquela vontade de crescer mais,
De viver mais.

Enfim,
Tua presença em mim é um momento leve,

No qual minha alma pede licença
,
E se deixa feliz,
Dançando ao som da música que é você...



DESaTINOS



Quantas vezes vou ter de te matar (dentro de mim)?
Quantas vezes vou ter de te esquecer (pra sempre)?
Quantas vezes me dizer que não é possível?
Como posso temer te amar?
Ir até o fundo,
Depois não ter como voltar...
Quantas vidas vou ter de viver?
Para dar certo...
Ou para entender...
Como saber a hora certa de calar?
Como saber a palavra certa,
A tal palavra mágica: que-faz-destino-mudar...




Verão




Te dando conta, no último acorde do verão,

Que a razão não esteve necessariamente ao teu lado nas mais recentes decisões,

Tomas um rumo bem oposto do que te levaria pra casa.

Mas ainda se arma o tempo, ainda chove no teu caminho e te desarma a solidão,

Te martirizas, te amaldiçoas e desacreditas...

Tua fé te deixa e com pena de si, te deixas cair no acostamento da tua vida e tudo se apaga.


Até que um dia amanhece. Com pássaros, com boca seca e o sol batendo,

E juntas ânimo, juntas força, ergues o corpo, segues em frente, para o norte esse daí, que se apresenta,

Tua vida segue adiante e essas pernas que, hoje, são tuas, têm o passo que concebes,

Se enfim tem razão o teu traçado, ainda não sabes, é melhor não arriscar, pois amanhã,

Podes ter outra opinião e jogará, de novo, tudo para o alto.

Por hora, decidiste teu passo,

E se não deste par às tuas pegadas, tua casa é teu próprio sapato,


Pois nada te prende nesse chão, ruma pra onde for,

Afinal, um homem só também faz estação.




Carta de Importados II


Comecei a ler um livro hoje, vou reproduzir um trecho de um dos poemas. O livro é do Bukowski e se chama "O amor é um cão dos diabos".

Saúde, enjoy It!


a deusa de um metro e oitenta

"...depois nos deitamos enlaçados como vinhas humanas
meu braço esquerdo debaixo do seu travesseiro
meu braço direito sobre o lado do seu corpo
aferro-me às suas mãos
e meu peito
barriga
bolas
pau
enroscam-se nela
e através de nós
no escuro
passam raios
pra lá e pra cá
até que eu desfaleça
e nós durmamos.

ela é selvagem
mas dócil
minha deusa de 1,80
faz-me rir
a risada do mutilado
que ainda precisa de
amor
e seus olhos abençoados
fluem para o fundo de sua cabeça
como nascentes na montanha
ao longe
nascentes
frescas e boas.

ela me resguardou
de tudo o que não está
aqui".

sábado, 16 de agosto de 2008

Calmaria



Estar com você é manter os pés no chão,

É voar mão com mão,

É sentir a brisa no rosto,

No corpo, luz e aconchego.


Dia e noite poesia

Noite e dia calmaria


Desço o morro, e lá do alto já se via,

Cá embaixo, o brilho teu já seduzia,

Ninguém pode dizer que não.


Dia e noite poesia

Noite e dia calmaria


Louco tempo já se ia,

De guerra tanta, alma fria,

De mágoa e pranto, até a minha...


Mas com você me espanto,

É sempre assim:


Dia e noite poesia

Noite e dia calmaria

Sempre calmaria...



quarta-feira, 30 de julho de 2008

Retrocesso


Fiz meus rascunhos nos cantos das folhas,


Rascunhei minha vida,


Passei a limpo meu passado,


Passeei no tempo,


Revi meus sentimentos.


Daí, me vi meio vazio,


Perdido um pouco,


Assim, tal folha ao vento,


E agora, lembro que essa sensação


Me era tão comum,


Mas fazia tanto tempo...



quinta-feira, 24 de julho de 2008

Beija o dia


Se temos pequenos motivos
Se fomos tão subtraídos
Ainda há o romance.
Em tudo se tem vantagem e vida.

Sei que não sou inocente

Já não tenho o coração tão quente

Pudera não fosse tão frio

Há tempos, deixei pra trás aquela sede.


Se a lua cai e vem o sol esquentar
Então deita e rola, beija o dia.

E um tanto de amor pendente,

Com o brilho que espanta mágoas
Confere sempre esperança

De tudo, tudo é lição, que doa o coração:

É força

Pois sempre soube ocultar

O medo, o vazio de dentro

O fogo é maior e intenso

De tudo, tudo é lição, escuta a voz, sente a emoção do peito.


quarta-feira, 23 de julho de 2008

Rótulos



Não quero mais rótulos,

Quero sair da tribo,

Abandonar os grupos,

Os nicknames,

As chaves,

As senhas...


Liguei para todos os lugares e cancelei os contratos,

Os acordos,

Deletei todos os contatos,

Solicitei minha exclusão de seus cadastros.


Não vou figurar mais na comunidade,

Na associação de bairro,

No condomínio,

Na lista telefônica,

No sindicato,

Zerem minha ficha na polícia!


Queimei minhas carteirinhas,

Do clube,

Do museu,

Da biblioteca,

Do manicômio,

Quebrei meus cartões,

De fidelidade,

De crédito,

De débito,

De permissão,

Minha carteira de motorista, queimei.


Quero meu crachá personalizado,

Dizendo que não pertenço a nada,

Que não estou classificado em nada,

Que não tenho moradia fixa

E que meu prazo de validade

É até quando Deus quiser...