quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Conto: O TÍTERE - FICA!





Volto,
Solto o corpo,
Vacilo, entregue.

Alguém move os dedos, puxando as cordas. Me fisga e me arranca o ar do peito.

Alterno entre um plano e outro, pulo na cama, do abismo ao colchão.
Abro os olhos, vejo o teto, pisco, fecho os olhos novamente, com força, os reabro.
Olho em volta, ainda sem ar... Ela está ali, de pé, ao lado da cama, já vestida. Me enxerga todo e está a plenos pulmões.

Não consigo decidir entre raciocinar sua beleza ou me rebelar sobre sua disposição para partir. Vou no óbvio: a beleza, partindo.
Tenho sono, e tenho raiva, ainda não sei de quem. Queria ter acordado antes, para evitar.
Ela faz isso: se mexe enquanto não percebo. Age, enquanto busco folego. Me beija sem dizer nada. Sai, enquanto procuro as palavras.
Fica a saudade, o vazio e a raiva - de mim.


- Fica!

Fica tarde demais.
E ouço a porta,
Batendo... 


Link para O Títere (parte 1)


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A_Flora e Fogo





Era ela, em vermelho. As mãos ondulavam, dançavam ao vento enquanto cantava. Eu não via mais nada. Girando, mostrava o caminho da música, sua frequência na minha, tudo o que ela me permitia perceber, beirava o divino.
Me abraça!

A mãe sonhou que subia a encosta de um morro, era tão íngreme, exigia tanto das suas pernas, lhe doíam os quadris e o bebê em sua barriga reclamava, queria vir ao mundo e a ajudar, a subir.

- Não está na hora, amor. Está tão quente... Me espera, você não está pronta, não ainda. Nem eu...

Quando chegou ao pico e olhou para baixo, era tão alto e tão fundo, e tão quente. Apenas quando apertou os olhos, e focou, pôde perceber: tratava-se de um vulcão. Com o susto, escorregou e mergulhou, rumo à lava.

O pai acordou. Era tanto calor. Mais que ele, sua esposa, grávida de vinte e oito semanas, molhada em suor, passava mal, delirava. Tentou em vão despertá-la. Ergueu-a no colo. Nada o acalmaria, queriam tanto sua primeira filha. Queria garantir o bem estar de Maria. Não conseguia. Enquanto dirigia o carro, tocava seus dedos e passava a mão em seu rosto. Ela não reagia. Deus, ele pensava: eu vou conseguir. Segura Maria.

Maria não segurou...Mas Flora nasceu.



Élinson Martins (março/2016)


sábado, 6 de agosto de 2016

ACID SERIES: Carlos Severbuk: O velho, o cego e o novo blues – Parte 5





- Serviço de quarto – Veio o grito acompanhando pancadas na porta.

Pensei em rir. Mas pensar nisso me fez perceber que rir, já era algo fora da minha realidade há tanto tempo. Ainda assim, parecia cômico perceber que a essa altura da desgraça da minha vida, eu tinha uma buceta jovem e molhada entre meus dedos e ao mesmo tempo uma bebida desejada à porta. Paraíso? Será que as horas em que passei no banheiro eram um limbo? E agora, enfim, chegara minha redenção? Eu vou morrer! É agora! Tudo me fazia crer que sim. Meu coração pulando, mais que isso, eu sentindo essa porra no meu peito batendo, como há tanto tempo não sentia. Mexo os dedos? Olhos naqueles olhos que me chamam? Sinto frio? Sinto...me arrepio...eu não conhecia mais isso. Tenho medo de machuca-la, pois não sei mais sentir, foder, com os dedos sequer.

- Deixa na porta! – gritei, com medo de assustá-la. Mas criei coragem e a olhei naqueles olhos verdes, entre abertos, lindos, indiferente, molhada.

- Você tem que assinar! – devolveram.

Caralho.
Olhei de novo pra ela, pedindo piedade, eu acho. Eu não queria quebrar, eu não queria parar. Você sabe... Não sabe?
Ela balançou a cabeça, me deixando ir. Abriu mais as pernas, tirei o dedos e levantei em gestos que pareciam levar uma vida.
Me ergui, como um prédio, aos meses, sob engenharia, arquitetura, mas materiais escassos , descalcificação, artrites, traumatismos, desistências.
Abri a porta, um rapaz, de uns 18 anos, que cumpriria dezesseis vezes melhor o meu papel ali dentro daquele quarto, com aquela garota. Os olhos intrusos, me coloquei no caminho dos seus olhos e perguntei:

- Onde assino garoto?

- Aqui senhor...

- Obrigado!

Peguei a garrafa de cima da bandeja. Fechei a porta na cara curiosa dele.
Com a garrafa na mão, tonteando no quarto, sem encontrar mesa, sem encontrar copo, abri a todo custo a garrafa. Era mesmo a bebida que pedi. Ainda assim, me faltava coragem, me faltava rumo e copo e envolto com o pingo de tesao nos meus dedos molhados com o tesao dela. Tomei um gole generoso, sedento. Caralho.
Baixei a garrafa na mão direita. Vivi. Puxei o braço, mais forte, mais firme, maior. Voltei.
Olhei ela nos olhos. Ela sorriu, e riu alto.

- Tudo bem? – perguntou.

- Ta gostoso? – sem resposta minha

- Aham – me veio, e sorri, pela primeira vez, quando foi a última vez que sorri?

- Quer?

- Quero sim! – rapidamente respondeu.

Ela se ajeitou na cama. Roupa nenhuma, o lençol escorrendo até a cintura, revelando os seios, pequenos, num sobretom tão sutil, os cabelos em volta. Cedi a garrafa, nossos dedos se tocando com sutileza, e me percebi sentindo isso, esses detalhes, como já não sentia há tanto tempo. Ela empinou a garrafa. Gole. Goles. Goles. Bebeu mais que eu, duas, três vezes. Puxei a garrafa da boca dela,

- Calma garota!

- Estou calma – riu – Agora vem! Quero beber você!!

sábado, 30 de abril de 2016

ACID SERIES: Carlos Severbuk: O velho, o cego e o novo blues – Parte 4



Abri os olhos e uma infiltração no teto, ao canto, me chamou a atenção. Úmido o teto, úmida eu enquanto descruzava as pernas. Um lençol por cima do meu corpo nu,  longe de me trazer conforto, ainda me protegia, seja lá do que for. Menos dele, que o dividia comigo. Bom dia ogro, pensei. De costas para mim, quase não me deixava ver a parede oposta. Peixe grande, largas espinhas. Precisava parar com isso! De deitar com qualquer cara que encontrasse no bar. Aos poucos me vinha a lembrança da noite anterior. O velho Vini tocando sua gaita de boca, aquele blues que mexia comigo como nenhuma outra música mexia. Meu refúgio. Ele cantava minha dor, meu vazio, meu nada. Aquilo que eu insistia em transformar em alguma coisa. Pelo visto sem sucesso...
Lembrei de como nos encontramos, o ogro e eu, sua entrada no bar, nitidamente bêbado já. Mas ele levava algo no olhar. Não sei se era apenas raiva, desassossego. Aqueles olhos me diziam alguma coisa, que ainda não sabia bem o que era. Que caralho de vida é essa que eu levo? Eu sei que uma garota de 19 anos num bar de beira de estrada, possui um poder que mulheres muito mais maduras e vividas que eu, jamais terão. E devo ser uma putinha muito esperta por isso: Passar a noite seduzindo homens frustrados para ganhar bebidas e cigarros a troco de atenção, talvez seja algo degradante. Pois bem, bem-vindo à minha vida! Mas eu não esperava mais que isso...vou lhe poupar de contar qualquer história triste. Que se foda. Me poupe do seu julgamento. Já pude concluir, há tempos, que cada um tem seu drama e que nossas atitudes refletem na vida que vivemos, bla bla bla. Já usei todas as drogas que tive ao meu alcance, já encontrei todos os tipos de filho da puta que existem para encontrar. E tomei algumas surras, eu sei. De tantos, da vida. Eu quero apenas um motivo para seguir. O fato de ainda abrir os olhos e encontrar as infiltrações nos tetos destes pulgueiros, já é suficiente, continuemos.
Agora, esse velho aqui tem algo. E estou cagando para o carro dele ou se ele tem algum lugar aonde cair morto ou não, não é essa questão. O fato é que ele parece ter uma raiva de tudo, tão grande quanto a minha. E se tivermos que desafiar o próprio diabo agora, ele parece ser um bom aliado.
Ele acordou. Não...dormiu de novo. Encontro um cigarro no criado mudo ao meu lado. Sento na cama e o acendo, sem pressa. Solto a fumaça e fico um pouco tonta. Sem novidade. Os lugares que tenho para ir me querem tanto quanto os quero. Nada. Prefiro a tontura. A tortura. Suspiro, sem pensar em nada, apago o cigarro e apago, em poucos minutos.
De lado na cama, abro os olhos e me deparo com ele me olhando. Um olhar doce, terno. Sorrio, inevitavelmente.
Em um pulo na cama, ele se vira e vomita. É o mínimo. Não o acompanho nessa, pois não tenho nada no estomago. Cerveja e mágoas, mas meu corpo se conformou com isso, faz algum tempo.

      - Você está bem? – pergunto.

      - Estou morto. Para onde devo ir?

O acho divertido, e lembro que foi isso que me atraiu, além daqueles olhos. Bom vê-los abertos. Ou quase.

      - Quem sabe para ali? – Aponto o banheiro com os olhos.

Ele vai...vagaroso, desistente, mas vai.
Eu fico...por uma eternidade, fico.
As bolhas do teto, parecem que vão ceder e cair sobre mim. Ele puxa a descarga, uma, duas, três vezes. Tenho vontade de levantar, bater na porta, ajudar. Segurar seu corpo imenso em frente à privada enquanto vomita. Mentir que vai passar. Mas não passará nunca, nunca vai passar. Fico. Quando ele sair do banheiro, me asseguro de que ele está bem e vou embora. Junto minhas roupas, lhe beijo o rosto, digo até um dia e vou embora. É isso que eu faço querido. Eu sei, nem transamos. Mas não lembraríamos de qualquer forma, amor. Isso, seu pau não levantaria, amor. Não, não quero um tostão seu, se quiser me pagar apenas o taxi até a estação eu aceito querido, claro, afinal de contas preciso ir, eu tenho minha avó para cuidar, ela está tão doente. Ela que me criou depois que meus pais morreram, amor. Um dia lhe devolvo, ela possui um seguro que vai me deixar tranquila por um bom tempo.
Encho o saco e grito:

      - Hei! Tá tudo bem aí?

      - Tá, tá tudo bem sim... – Mentiroso! Como se eu não reconhecesse o peso que tem a porra da vida, e toda aquela bebida.

      - Então volta – eu juro que vou embora se ele ficar mais um minuto lá dentro.
. . .

     - Vai anoitecer, e eu não quero ficar sozinha... – eu digo, me arrependo e não entendo de onde isso saiu.

Ele enfim sai da porra do banheiro. Tento manter minha cara decente, sorridente. É foda, não sei, mais o que sou ou sinto. Mas estou ali e ele não é um cara mau. Puta que pariu, quantas vezes disse isso para mim mesma e acabei costurando o rosto em algum pronto socorro qualquer?

Trocamos algumas palavras, ele me fez rir e pediu uma bebida para a recepção do hotel.
Me animei com a ideia. Voltei a me excitar. Ahh velho, se você soubesse...

      - Por que você ainda não foi embora, garota? – É, ele não sabia realmente.

Ele insistia, coitado, em vão, resistir, se livrar de mim.

    - Vá embora garota! – Me disse ele a uma certa altura...A frase mágica, querido, ninguém me manda embora! Todos pedem que eu fique. Assim me apaixono por você.

      - Está gostoso aqui querido. – Falei, e me espreguicei, ressaltando cada contorno meu no lençol. Ogro, quem manda aqui sou eu! Toquei de leve seu ombro...

      - Você é quem sabe! – Falou, tentando tirar minha mão. Ele acha que sabe o que está fazendo. Pensei...E sem pensar, peguei sua mão e a conduzi direto em mim, quente, molhada.


      - É, eu sei sim! – Entreguei, diante dos seus olhos.


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Parte 1

Parte 2

Parte 3





domingo, 10 de abril de 2016

ACID SERIES: Carlos Severbuk: O velho, o cego e o novo blues – Parte 3



Tudo o que eu não precisava era de incentivo para viver, não... aliás, tudo o que eu não queria era incentivo para viver. Mas puta que pariu, ela era uma mulher linda dizendo que não queria ficar sozinha ao anoitecer. Tratavam-se de duas questões cruciais para mim. Uma era: como deixar uma mulher solitária em uma cama de motel à beira da estrada? Outra, era anoitecer e ignorar que tudo o que me fazia sentir um pingo de vida ainda nessas células desistentes, acontecia quando o sol se entregava e a lua se erguia no céu.
Logo ao lado da basculante do banheiro ouvia os grilos lá fora, anunciando a chegada da noite.
Lavei minha boca mais uma vez, tentando livrar-me do gosto amargo de mim.
Sequei a água que escorria pela minha barba com uma toalha rosada, vagabunda e fedorenta. Revirava os olhos sem querer, só sentia uma fraqueza e uma tontura que me era tão familiar durante minhas ressacas. Pousei a testa sobre a porta por instantes, minha barriga se inflou, meu peito também e pelas narinas sentia algum ar invadir meu corpo. Devem chamar isso de respirar. Tentei de novo. Já não aguentava mais isso. E sem muita consciência, mas resoluto, girei a maçaneta...
Ultrapassei a porta, tentado manter o ar entrando e saindo do meu corpo, sem me desconsertar e sem perder os ritmos das lentas e mancas passadas. À esquerda ao fundo, uma porta marrom em volta das paredes mofadas. Janela nenhuma nos talvez quatro por seis do quarto. Nele não havia mais que uma cama de casal, um tapete verde imundo em forma oval e um quadro torto na parede, retratando uma ilha com um sol banhando o mar. Aquele era, provavelmente, o único sol ao qual me disporia a ver. E a última cama na qual deitaria meu corpo até que alcançasse a Glock 9mm no porta luvas do carro. Deitada, ela me olhava e sorria. Baixei os olhos logo que cruzei com os dela. Mas não em tempo:
            - Está melhor, gato?
            - Gato?
            - Hahahaha, está melhor? – Gargalhava como se não houvesse miséria no mundo.
            - Ah claro, estou... – sem limites para meu fingimento.
Alcancei o telefone, alguém que deveria ser uma gorda, mau humorada, rosnou:
            - O que que é?
            - Que bebida você tem aí? - Tentei não me intimidar.
            - Que bebida você quer? – Ela me testava.
            - Jagermeister você tem? – Rebati, sugerindo o impossível.
            - Tenho, 200 pratas a garrafa.
            - Manda uma! – Improvisei ainda sem acreditar que de fato ela tivesse.
            - Em dez minutos. Quarto 12. Você tem como pagar velho?
            - Manda logo essa merda!
Desliguei com uma pancada.
Olhei para minhas meias sujas quase escapando dos pés. Nem nos lugares mais remotos da minha imaginação eu conseguiria me sentir menos do que o pior homem da terra. Se eu estivesse sozinho, seria apenas meu exercício diário de ser um verme e querer deixar as areias das ampulhetas caírem. Mas tinha alguém atrás de mim, com os olhos nas minhas largas costas. Suspirei e gemi durante o esforço de retirar as meias. E me virando, mas não a ponto de alcançar seus olhos, mandei:
            - Por que você ainda não foi embora, garota?
            - Você quer que eu vá embora?
            - Não sei nem porque você veio – tentava me manter insuportável.
            - Você que insistiu querido... – eu era querido então. Estava dando tudo errado.
            Fiz minha mais maldita expressão, agora buscando seus olhos, mas me desarmando com os doces olhos verdes dela:
            - Merda garota, você...você não deveria estar aqui...
            - Onde mais eu iria querer estar, gato? – Terminou a frase tirando o braço direito sob o lençol pousando a mão no meu ombro.
            Tentei me esquivar sem conseguir. Que filha da puta. Sou um velho derretido e fraco para esse tipo de coisa. Principalmente porque sentia verdade nela e não aquelas putices às quais estava acostumado. Conheço uma puta fácil de longe. Das mais veteranas desesperadas às mais novas oportunistas. E eu sou porra nenhuma em potencial para ocupar o tempo de qualquer uma delas.
- Vá embora garota!
- Está gostoso aqui querido. – Me sorriu espreguiçando. Comecei a questionar por dentro tudo o que achava que sabia. Era pouco. Mas era meu. Me orgulhava de tudo o que havia passado. E estou falando das merdas todas. Não estou falando de estudo em faculdade meu amigo, não estou falando de herança, de convívio com pessoas boas, de convívio familiar. Aliás, meu amigo, o caralho. Não tenho amigos e tenho orgulho de não me misturar com essa escrotidão que é a sociedade, o sistema, o coletivo, a humanidade. Eu não quero fazer parte. Eu não quero ser, eu não quero porra nenhuma, eu não sei porque estou aqui. Só sei que estou e insisto em escapar desde que nasci, mas devo ser um covarde do caralho. Isso, um covarde é o que eu sou. Do caralho.
- Você é quem sabe! – E fui tirando a mão dela do meu ombro, quando ia soltar sua mão, ela segurou a minha, levando diretamente à sua buceta, sob o lençol quase branco.
- É, eu sei sim! – Falou enquanto eu arregalava os olhos, surpreso.


- Serviço de quarto – Veio o grito acompanhando pancadas na porta.

sábado, 5 de março de 2016

ACID SERIES: Carlos Severbuk: O velho, o cego e o novo blues – Parte 2



Abri um olho, depois o outro, lenta e pesadamente. A luz chegava aos poucos, cortando, rompendo o gelo da minha morte, insistindo em me deixar vivo, me ressuscitar. Havia bebido tanto, que se fosse para passar dessa para melhor, teria tomado esse trem, sem sequer perceber. Deixei mais algumas horas passarem, sem me mexer, sem me envolver.

Abri um olho, depois o outro. Vi um e depois dois olhos verdes, a minha frente. Se eu tivesse algum reflexo me assustaria. Juro! Por dentro, me assustei. E fazia tanto tempo que não me assustava, nem por fora, nem por dentro. Os olhos em mim, o sorriso também. Como era linda, eu tentava articular qualquer pergunta, ou entender o que acontecia ou o que aconteceu, eu não sabia meu nome, nem o corpo que eu habitava. Ela não falava nada, apenas mantinha o sorriso. Virei para o lado e vomitei, e vomitei minha alma e nesse momento lembrei: eu era Carlos Severbuk, o filho da puta cujo despertador é o diafragma que traz seu passado de volta. Mas não preciso entrar em detalhes. Todos os dias era isso, só não contava hoje, com mais olhos e mais uma boca, com mais um corpo inteiro, em alguma espelunca de beira de estrada, ao meu lado. E vomitei de novo.

- Você está bem?

- Estou morto. Para onde devo ir?

- Quem sabe para ali? - Se divertiu apontando o banheiro.

Obedeci. Enxaguei a boca e lavei os olhos e o rosto. E haveria de passar aquela porta...E, aos poucos, tudo foi voltando: o cachorro empalhado, os dias prostrado, a poeira amarga lambendo meus lábios, o tanto de vinho, o tanto de mim, amargo...minha fuga, minha angustia, o Volvo acelerado, o bar, o cego e o blues, aquela garota atrevida, a vida insistindo...era ela! Do outro lado da porta, sobre um colchão roto, a garota. Puta que pariu!
Era ela!

Não lembro como chegamos ali, não entendo ainda como sobrevivi.
Lavava o rosto sem erguer os olhos para não ver o espelho. Minha realidade, por dentro, já era intragável, insuportável. Não queria dar rosto aquele pedaço inútil e deslocado de tudo que eu me sentia.

Cuspi todo meu chorume, um tanto de bílis. Foda-se! Se assim fosse, eu queria era enojar o próprio diabo! Eu preferia assim, ser o pior, deitar e rolar, sem martírio algum, na minha miséria...

- Hei! Tá tudo bem aí?

- Tá, tá tudo bem sim... - menti. Se fosse para falar a verdade, eu não saberia nem por onde começar. Queria um ralo. Queria me desligar.

- Então volta!

Respirei fundo, e tudo era ferrugem e cacos, era tudo bolor e sujeira. O banheiro, eu...

- Vai anoitecer, e eu não quero ficar sozinha...


Com as mãos apoiadas na pia, eu pensava, minha criança: Nunca vou poder te acompanhar...Todos os homens do mundo te querem nesse momento. Eu? Sou apenas um barco naufragado, que já não anseia navegar...



05/03/2016
Obrigado Paulo Vida, por pedir 'notícias' do Velho, o cego e o blues!


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Parte 1


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Estofo da Maré*


*Estofo da Maré: Intervalo de tempo onde não há corrente de maré. Corresponde à mudança do sentido da maré.


Às vezes anseio tanto fechar os olhos em frente à brisa do mar, na esperança de ouvir apenas o assovio do vento passando ao lado, como que me ninando, me fazendo esquecer de tudo o que não me faz bem, até de ser, por alguns segundos.

O sopro constante nos topos das dunas,
O gosto de sal nos lábios,
A areia em minhas mãos,
O mar batendo ao fundo,
Enquanto trato de baixar a maré aqui dentro. 
Quando consigo fazer isso, parece que fico mais lúcido. Mas não é sobriedade, não é clareza. Parece que fico mais leve, me desfaço, me desconstruo... Esqueço-me desta torre torta, desta fachada arrependida, dos alicerces tão profundos que a ferrugem toma conta aos poucos, sem fazer alarde.

Dia desses, me distraí na estrada, vendo uma pipa no céu.
Logo eu que quase nunca me distraio.

Quando acontece, não sei o que fazer,
Parece que parte de mim está querendo fugir.
Segui de longe aquela dança,
Uma fuga flutuante em direção ao mar,
Sua rabiola balançando doce ao vento.
No céu azul,
Parecia um escudo de um guerreiro invisível.

Quando me dei por conta,
Percebi que cheguei a sair da estrada,

Logo eu que não sei como fazê-lo...

Élinson Martins 25/02/14


quinta-feira, 16 de julho de 2015

SEMPRERELEIO: Para uma avenca partindo (Caio Fernando Abreu)



- Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? falava do  mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor, pensei sim, não, pensar propriamente não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além de nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, de não sentir medo desse mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos conta, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa da garganta que falo, é de uma outra, de dentro, entende? por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o  tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim dum jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento  essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não crescia se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai ser mais possível, se eu não disser tudo não poderei nem dizer nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor, não é? pois isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando numa porção de coisas que eu ia te dizer depois, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis que precisam ser ditas, não faça essa cara de espanto, elas são realmente terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, se você teria, não sei, disponibilidade suficiente para ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e, se assim, até quando eu conseguiria ver você em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender melhor, claro que dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é, eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque, se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definitivamente em nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer todas essas coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos pra quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficaram comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai .................................................................................. sim, sei, eu vou escrever, não, eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as bolsas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê. 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

E se alguém me encontrar?




Se você estivesse aqui na manhã em que lhe chamei,
Se você estivesse aqui,
Mas minha história hoje segue sem você,
E eu pareço não conseguir,
Tento encontrar alguma prova de que estou vivo,
E minha prova era você,
Porém você partiu, e eu ainda não sei o porquê,
A noite foi límpida e livre como a lua que nos refletiu,
Procuro um esconderijo enquanto você não volta,
E não sei se foi buscar alimento,
E não sei se foi buscar ajuda.
Quando o sol atravessou a sala,
Pra me revelar a pressa das coisas,
Eu ainda estava ali,
Escondido, chamando você,
Tentando entender,
O que você foi buscar?


Enquanto eu estava aqui...


sábado, 8 de novembro de 2014

FOME E SEDE



...eram migalhas, mas as deglutia como a um prato de comida,

Era apenas um pingo de atenção, mas se entregava sedenta, como se fosse amor...

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

(replay) RESSONÂNCIA


RESSONÂNCIA
S. F. 1. Propriedade ou qualidade de ressonante. 2. Repercussão de sons. 3. Propriedade de aumentar a duração ou intensidade do som. 4. Propriedade que os corpos apresentam de transmitir ondas sonoras.

Quero o sorriso franco e espontâneo de quem passa por mim na rua, 
Pra nunca mais voltar.

Quero o simples querer por querer, 
Que não seja uma idéia que se possa comprar.
 

Quero teu amor como um presente bonito,
 
Que um amigo secreto me deu,

Pra colocar num altar. 

Quero teu amor,
 
Como uma caixinha de música,
 
Pra eu ficar horas olhando,

Que me permita dormir tranqüilo,
Que me permita acordar sonhando.

08/06/2009

sábado, 7 de dezembro de 2013

SEM AIR B....


Estava deitado,
Estava dormindo,
Minha febre talvez nunca tenha passado,
Ou será que é você ainda habitando meu corpo?
Você que habita minhas costelas,
Naquela tatuagem que nunca vai me deixar,
Eu prometi, um dia, que estaria pra sempre,
Eu era um carro que nunca iria desacelerar,
Eu era o dia teimando cinza, sem querer acordar,
Ainda as curvas do teu corpo,
Sem sinal, sem farol, nem radar,
Dois dias depois, cinto de segurança nenhum,
Não consigo segurar (a saudade), 
Não sei frear, vou colidir,
Quero me desencontrar,
Só pra ter o que dizer,
Perco o ar e a rima,

E sem freios não há como evi...


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Conto: O TÍTERE




Ao se despedir ela disse: um dia eu volto, mais cedo ou mais tarde.
Foi mais tarde...

Cortava os pêlos do nariz às 2:30 da manhã com uma tesoura pontiaguda.
"Eu só funciono de madrugada". Era do meu vô, a tesoura e esta frase.

Me assustei com uma buzina tão alta àquela hora, e acabei me machucando com a tesoura. A buzina era insistente, corri na janela com um pedaço de papel higiênico pendurado no nariz.
Tratava-se de um carro branco, importado, nunca o vira antes. Já quem estava em frente ao volante, abanando...como se fosse mais cedo, eu conhecia bem.

Desci cada degrau dos seis lances de escada, pensando se em outros tempos não desceria até o inferno por ela. Os tempos são outros, e continuo descendo. Por ela.
A porta do prédio me escapou das mãos, batendo com um forte estrondo, acho que não tão forte quanto meu coração, que batia entre minhas orelhas.
Ela liberou as portas, entrei, dei o sorriso que pude... Ela sorria com todos os dentes e me tirou um pedaço de papel do nariz antes de me abraçar. Que patético eu sou.

- Você não vai dizer nada?
Eu não respondi, não estava conseguindo combinar essas coisas: raciocinar, articular os pensamentos, voltar no tempo e ainda em tempo, respirar, mover o diafragma, ruminar as palavras, expulsá-las da boca.
Eram dois anos e 700 e tantos "por quês?" dentro de mim (um para cada dia do seu sumiço). Não, eu não os colocaria pra fora. Fiz silêncio, cara de paisagem e dei de ombros.

Ela sorriu de novo. Como era fácil ser ela.
Como eu queria um buraco para me enterrar.
Percebi seus lábios roxos. O habitual vinho estivera por ali.
Ela ligou o som numa estação de rock. Tirou as luvas, acendeu um cigarro, com todo o charme e falta de pressa do mundo.
Depois de expulsar a fumaça pela janela, me olhou daquele jeito sedutor só dela. Seus olhos me diziam: "não adianta fugir, sou mais certa na sua vida do que a morte e como ela, estou à sua espreita a cada esquina".
Enquanto a boca dizia:
- Você me conhece tão bem. Você sabe, estava com saudades.

E eu estava fodido, já sabia que era um fantoche nas mãos dela, desde a primeira vez. Ela era como uma droga e não havia tratamento, terapia, remédio, dormir, sumir, não havia... Mantive o silêncio, concluí que era como areia movediça, preferi então não me mexer, não resistir.
Durante o beijo intenso, pressionei meu nariz contra o dela e imediatamente senti escorrer de novo o sangue pelo rosto, pelas nossas bocas, enquanto pensava na ironia: mais uma esquina, mais uma morte, mais uma vida, desta vez ela me fizera sangrar e tudo.

"Uma paixão mais certa que a morte".

A morte era minha.
E a frase era dos olhos dela.


Élinson M. S. 23/05/13