sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Hipersensível


Seria duro demais, seria cedo demais, seria improvável.

Seria forte demais, teria muitos impactos, seria insuportável.


Devia saber que rápido demais, esse tempo de menos, iria faltar no final. Inevitável.


Haveria silêncio demais, seria demais esse beijo, nasceria o medo. Inquestionável.


O calor foi demais, o temor nos fez mal, não deveria pensar. Inconcebível.


Experiências demais, inocências de menos – sem avisar, mudamos de planos.


Imprevisível!


sábado, 23 de fevereiro de 2008

Estimação


Vou te dar um filhote de São Bernardo,

vou te dar uma ninhada de gatos,

vou te dar um peixe exótico,

e um pássaro de 7 cores e um falcão peregrino,

poderás ter um lagarto

ou um velho lobo que te protegerá.

Vou te oferecer tudo o que é vivo,

irás adotar, se assim quiseres, tudo o que pulsa,

cada animal que reside na casa, na mata,

na floresta e no campo aberto que sou.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Fórmula


Mesmo quando se apagarem as luzes, tu vai me sentir por perto,


Mesmo quando teus olhos fecharem, exaustos, tu vai me ver


E sempre vai notar essa chama presente,


Vai ouvir meus passos, quando suave eu chegar junto a ti,


Vou dizer com carinho ao teu ouvido, que te amo


Vai sentir meu cheiro, vai perceber nos meus traços o peso de mais um dia,


Vai entender o cansaço em meu rosto,


Vou te mostrar que esse pesar ficou todo lá fora,


Quando virei a chave na porta da frente,


Vamos nos beijar com a mesma paixão,


E todos os dias vamos esperar por este momento,


E as noites serão de tempo bom e lua cheia,


A vida ao teu lado será intensa e rica em espírito,


Seremos cúmplices, sócios, donos de uma fórmula simples de ser feliz,


Que nos coube a alegria de um dia descobrir...


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Surpresa

Me conheça de uma forma diferente,

Em um lugar inusitado,

Num momento inesperado,

Com as palavras impensadas,

Me fale frases que necessitariam de anos pra serem construídas,

Me explique a vida pelos teus olhos, e com a inquietude destes mesmos olhos,

Me faça questionar tudo novamente, desentender tudo novamente.

Me beije num improviso, numa hora em que não haja explicação,

Me roce a nuca,

Me fale baixo,

Me arranhe e me morda,

Me aperte as mãos,

E não me diga nada mais,

Puxe minha mão ao teu colo e então me silencie, serenamente...



domingo, 3 de fevereiro de 2008

Começo de chuva




E agora as gotas da chuva
Me fazem lembrar do som da água caindo nas telhas
Nas telhas de cada lugar que morei até ontem (em que nunca mais morei)
Eu parava e ouvia a chuva batendo
Quando estava pra rir ou pra chorar.
Molhava o broto seco cá de dentro esse começo de chuva,
Raiz e tronco mexia
E não sentia mais o tempo passar,
Só crescia.

Números




Estamos voltando pra casa, é 2006

Ela dirige nosso conversível, de 1976

Toca um blues, de 1968

Ela usa óculos escuros e o vento passa gostoso pelo seu rosto,

Eu durmo um sono leve no banco do carona,

Sonho com luzes noturnas de uma cidade,

Sinto sua mão na minha nuca, gosto dessa sua mania,

Estamos a 80, a estrada é longa, uma linha reta,

1200 quilômetros de volta pra casa.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Lembra...



Lembra de quem tu é,

Te lembra do que te identifica e te torna único, nessa vida,

Te lembra do cenário onde tu é feliz,

Te lembra dos cheiros e das cores das coisas que te fazem bem

Encontra, no teu coração, dentro de ti, aquilo que inspira teu mais sincero sorriso

Sinta-se confortável por saber que existem pessoas que rezam por ti todas as noites, antes de dormir, sinta este afago,

Reze e pense positivo pelas pessoas que tu ama, pense positivo e faça coisas que valem à pena, e que valerão ser lembradas mesmo que só por ti, com orgulho, com paixão.


terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Lua Trôpega




Entenda que o barulho dos seus passos percorrendo meu quarto,
Entenda que o som da sua risada,
Entenda que os fios de cabelo caídos em frente ao seu rosto,
E sua pele arrepiada com meu toque,
E sua respiração próxima ao meu pescoço,
Entenda que nossas mãos apertadas com força,
Minhas mãos na sua cintura e seus olhos nos meus,
Entenda que flutuo, levito quando fecho os olhos e penso nela,
E que o tempo corre desordenadamente enquanto rimos e sorrimos e suspiramos,
Entenda,
Entenda e tente me explicar porque à noite, a lua parece me sorrir,
Enquanto caminho pela rua, pensando nela, olhando pra trás,
Tropeçando, embriagado, sonhando acordado...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Espaçoso

Vou criar uma pasta entre teus documentos, no teu PC,
Será apenas para alguns filmes, umas músicas e clipes aos Gigas que gosto.

Vou empilhar minhas opiniões definitivas, meu barulho respeitoso e minhas verdades imutáveis sobre as tuas, e juro, cresceremos juntos.

Jogarei meus olhos insuspeitos sobre tuas pegadas e sobre teus passos pela amanhã e, assim, seremos íntimos.

Utilizarei tuas linhas telefônicas, teus cigarros, tua campainha, teu controle remoto, tuas lembranças, o vazio da tua geladeira, teus óculos escuros e tuas olheiras.

E enquanto dormes, abrirei tuas cortinas e janelas ao amanhecer, pois precisamos viver...


Chão





Preciso tocar o chão,
Tocar o chão com as mãos,
Sentir a verdadeira gravidade das coisas,
Não ter mais como descer,
Ter certeza de que não haverá forma alguma de cair.

Preciso da terra,
Da terra e da noite, da noite úmida e de seu sereno,
como qualquer bicho rasteiro de olhos negros inquietos,
assim ensimesmado, com caprichos e manias
à espreita de cheiros e ruídos.

Preciso do silêncio das madrugadas,
Pela limpidez das coisas que não precisam dos reflexos,
Daquilo que se basta em si,
Daquilo que não precisa ser visto pra existir.

E vou passo a passo descobrindo meus porquês,
Lapidando meus delírios,
Desvendando grão a grão o pó, a pedra, a terra da qual sou feito,
Intenso, complexo e denso.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ao Contrário




Estive pensando em fazer tudo ao contrário pra tentar colocar tudo em seu lugar,
Deitaria sem dormir,
Dormiria meus dias,

Calaria na hora de falar
E na hora do silencio, gritaria.

Nos dias de chuva e frio, sairia em mangas de camisa,

Nos dias quentes, me recolheria, abafado em meu sofá, prato de sopa e meias.

Quando batesse a saudade, cortaria todos os canais de comunicação,
Isolado, me esconderia.

Quando quisesse tudo, nada faria,

Quando da vida não quisesse nada, seria correria.

Seria tudo ao contrário.

Quanto mais te quisesse,
Pra mais longe eu iria,

Quanto mais te dissesse: não te quero mais!
Mais distante da verdade eu estaria.

Expresso

Queria te dizer que sei que já não há mais tempo,
Queria te dizer que estava te procurando, que estive te procurando no lugar errado,
Enquanto estavas me procurando no lugar certo,
Mas talvez não fosse realmente o lugar certo de procurar, pois eu não estava lá,
Sei que os desencontros têm dessas coisas,
Destes cruzamentos todos possíveis entre a hora certa e a hora errada,
Entre o lugar errado e o lugar certo,
Entre você e eu...
Eu tentei te avisar,
Pra vir antes, pra não recuar,
Pois depois de um tempo, quando fosse tua hora de voltar,
Eu já não estaria mais lá,
Eu tentei avisar.
Mas, como eu disse uma vez, eu não sabia me expressar tão bem quanto tu dizia que eu sabia
E talvez tu não me deste a devida atenção
Pois esse é ou era o teu jeito, de recuar ou de manter uma barreira frente ao que é novo pra ti
Como me disseste uma vez.
E talvez, mas só talvez,
Eu não tivesse te dado a devida atenção,
Quando tu não tentou expressar nada,
Pois tu não te expressa ou não te expressava tão bem quanto eu,
Como tu costumava dizer.
Acho que eu deveria ter esperado, expressado, entendido –
mas já não há mais tempo mesmo não é?! Alô? Alô...?


Na primeira noite




Nas camisas molhadas,
no suor declarado,
nas palavras não ditas,

no silêncio falado,
nos corpos em desassossego,
nas pilhas de livros não lidos,
nas páginas vazias de um diário esquecido,
no disco girando com a agulha estragada,
nos olhares vazios,
nos pensamentos dispersos,
nos elos partidos da corrente prateada,
no trago tomado,
na cama desarrumada,
no violão de cordas quebradas,
na televisão pifada,
nas contas não pagas,
nas bocas salgadas,
nos beijos atônitos,
na urgência do gozo,
na pele marcada,
no cigarro amassado,
na meia rasgada,
no instinto desenfreado,
no grito abafado,
no sangue derramado,
o fogo que não se apaga...

Essa Mulher

Essa gata sabe o que faz,
Se esfrega nos meus pêlos,
Com preguiça, com malícia,
Me crava as unhas, eriçada...

Essa negra, quando visto branco,
Ela diz que me cai bem,
Passa a mão pelo meu peito
E com os olhos me chama pra dançar.

Essa mulher sabe o que quer,
Ela não pára, já não dorme,
De tanto trabalhar,
Trabalha, estuda, cuida da casa, dá risada, faz feliz, vai de ônibus, me ensina de tudo...
E, no fim de semana, me diz que não é nada, que é o que gosta, que não está cansada, que quer minha boca, que o tempo é todo nosso, que é hora de amar.


Marés




Pois ela, ela, como a lua,
Muda as marés,
E a mim,
Inspira de tudo, extremos,
Na maré baixa, junto areia, água e sal e milhares de minerais mais,
Formando corais e recifes ao longo de toda a costa, como esculturas vivas.

Quando sobe a maré,
Me deito sobre os coqueiros e os dobro como se fosse o próprio vento,
E fico mirando tantas ondas e tanta agitação, faço fogueiras à beira-mar e danças da chuva.

E nas ressacas, as minhas,
Afinal, não se ama de graça, sem pagar um preço alto...
Nestas noites de eclipse, em que ela desaparece,
Erro pra todas as direções em que ando,
Cambaleio sem saber pra que lado é a terra,
Pra que lado é o mar,
Não consigo ouvir nada, é aquele estampido constante,
Aquele desequilíbrio, e sigo, sigo, sigo cego,
Até a noite em que acordo,
Deitado na areia, com a boca seca e sedento (por ela),
As ondas batendo nas pontas dos dedos, me chamando.
E lá adiante, através dos olhos entreabertos, vejo seu brilho de novo,
Ela nua, na espuma, na água, sobre a arrebentação...