quarta-feira, 12 de setembro de 2012

ACID SERIES: 34º





fiquei impressionado com uma cena que assisti hoje do filme: Apenas Uma Noite.
pausei e escrevi isso, recomendo o filme. Espero que gostem (dos dois). Abraços! Élinson


Andei te maldizendo dias e dias,
não pensava em outra coisa,
mastigava mentiras, escorregava em paradoxos,
nos quais uma parte de mim te odiava,
e a outra te queria...

Errei por caminhos inóspitos,
e cuspi nas caras dos guardiões dos becos nos quais achei que te encontraria,
nestas noites, o brilho da lua me açoitava,
e enquanto parte de mim era vergonha,
outra parte cada vez mais se inspirava...

Tinha as mãos dormentes e a boca seca,
me tornei só coração e olhos sedentos,
segui tuas pegadas e no vento te farejava,
era quando parte de mim desistia,
outra parte de mim te caçava...

Quando subi no prédio mais alto da cidade pra gritar teu nome,
parte de mim se matava,
e a outra te encontrava...
metade tua era medo,
a outra metade eu não sei.

Te apertei contra mim em um beijo,
e nos queríamos tão forte,
que quando nos transpassamos,
eu sorri com tua boca e tu choraste com minhas lágrimas...

No terraço do arranha-céu havia vento, chuva e raios
minha barba e teus cabelos,
o sexo ardente
no trigésimo quarto (a) andar

silenciosamente, parte de mim já te amava,
e a outra...
Também.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

ACID SERIES: Carlos Severbuk e o vinho




...deixou cair mais uma taça de vinho na sala de estar,
Quebrou em mil pedaços,
Não se levantou para juntar os cacos,
Não fez menção sequer,
Estava cansado, e já não lembrava do que,
Tinha a barba por fazer,
E os cabelos grisalhos e compridos demais,
E o mundo lá fora, às quatro horas da manhã não se importava,
Eles sonhavam outro lugar,
Enquanto só ele estava ali.
Foda-se, pensou, preferia assim...
Com algum sorriso nos olhos esticou o braço e pegou a garrafa,
Os últimos goles no gargalo, um beijo na boca,
Fechou os olhos para imaginar melhor...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Cor do Querer


Ela estava ali, linda,
Parecia um quadro...
De muito bom gosto,
E tantas cores,
Eu fascinado... Como se entendesse assim de pintura e outras artes,
Senti calor, senti desejo,
Senti frio e senti medo e um pouco de tristeza até,
Todos os sentimentos... Cada um de uma cor,
Pálido ali, apenas eu,
Tela branca, pronto pra ser... 


(autora do desenho em SketchBook Mobile: Mare Vilela)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

ELA DISSE: O Céu e a Terra



Quando sentiu a garoa em seu rosto, ela diminuiu o passo,
Precisava disso: Ela queria o mundo em si...
Com as nuvens no rosto, se sentia livre,
E se pudesse, ainda tiraria os sapatos,
Pois queria voar com os pés no chão...

Pensou melhor e sorrindo, descobriu que podia sim, que podia tudo!
Então parou e descalçou o pé direito e o esquerdo em seguida,
E maior liberdade não havia...

Caminhava lentamente, de braços abertos e sentindo a terra sob seus pés,
E dali em diante, mesmo confiante nos passos que dava, tomou caminhos errados,
E ainda assim seu espírito era feliz.

Ela se sentia feliz por saber que mesmo tomando caminhos mais longos e levando mais tempo pra supor o que havia entre o chão e as nuvens, aquelas gotas da chuva em sua boca, tinham  um gosto de vida!

domingo, 27 de maio de 2012

FAZ DE CONTO: O Zé do Coco e o mundo verdadeiro



Nordeste brasileiro. Era chuvoso o outono em uma das praias da Bahia. Terça feira à tarde. A chuva forte recomeçara e não havia mais abrigo para quem ia de um lugar a outro tentando aproveitar a estiagem.
Seguiu em passos resolutos entre poças e carros que passavam dispostos a aumentar o banho de chuva dos pedestres. Pensava: é difícil estar numa guerra vestido para um jantar, é mais difícil se entregar à desejada brincadeira de criança, enquanto se está vestido de adulto.

Metros à frente via a tenda de água de coco do Sr. José, o Zé do Coco.
Lhe chamou a atenção ver o seu Zé tirando com um cabo de vassoura a água acumulada na lona. Os bolsões derrubando água, formando poças em frente à tenda.
“E o coco seu Zé?”
“Dois e cinquenta o gelado, dois real o natural”.

O Sr. José tinha 70 e poucos anos e sempre trabalhara com coco. Quando mais novo, “buscava o coco lá em cima no coqueiro”, com 19 assumiu a banca do pai que morreu novo, de “andaço”.

“Andaço seu Zé?”
“É meu filho, a dor andava. Começô no pé, depois foi subindo, foi pra perna, inchô o estômago, foi pará no peito e parou ali e ali fez tudo pará junto com ela”.
“Mas e então, vale a pena vender coco seu Zé?”
“Olha meu filho, se vale a pena eu não sei, meus neto busca os coco, meu filho traz pra mim no carrinho de supermercado, nóis tira um troco. Mas a melhor parte é que nóis une o mundo de verdade com os moço da cidade grande que nem o sinhô”...

Ele ainda olhava pro seu Zé tentando entender que tal união, que mundo de verdade era aquele.

Ainda cheio de sorriso o Sr. Zé concluía: “É meu filho, não tem ninguém da cidade grande que passe aqui, faça chuva ou faça sol, que pegano o coco comigo, ao tomá o primeiro gole, não faça essa cara de criança que tá mamando como o sinhô fez agora há pouco. É a cara de quem prova da natureza meu filho, o mundo de verdade é esse aqui. Aquele que vocês montaram lá eu só vejo pela TV, mas eu num quero ir nunca-nunca visitá”.

Com essa, o sorriso do outro lado dizia: “Até mais seu Zé, obrigado! A chuva diminuiu, acho que dá pra continuar!”.

Eram 15 horas, ele tinha três celulares molhados no bolso, sapatos e carteira molhados. Agora também tinha muita coisa pra pensar e aquele sabor de ‘mundo de verdade’ na boca...

domingo, 22 de abril de 2012

ELA DISSE: A Pedra e a Água


Se o teve por horas, dentre todos aqueles anos,
Já foi bom.
Ela não pensa mais agora, 
Chora...
Poder amar alguém nessa vida é um dom!

Ainda usa a camisa xadrez que ele deixou,
Quatro números maior,
Os botões das mangas arrancados,
A gola puída, ela nunca mais lavou...

Por vezes pega uma carona pela velha estrada,
Atravessa as montanhas,
Um caminho de pedras,
E mais alguns quilômetros até a praia...

Ele a levava pra lá,
E sempre depois de alguns minutos em silêncio olhando as ondas,
Lhe contava um pouco como “as coisas funcionavam”,
Velhas histórias com aquele jeito especial que ele tinha de olhar a vida, tão vivida.

Quando ela volta lá,
Reaviva cada segundo,
Cada vã memória, cada palavra,
E neste instante nada mais lhe escapa entre os dedos,
Nada mais se perde,
Nem mesmo as pedras que ele lançava ao mar,
Imaginando quantas vezes a pedra iria pular...

(Foto por: Amanda Kizzy dos Santos ABR 2012 ^^)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Porta de Fechar


Acordar, respirar, espreguiçar,
Abrir as janelas e as portas de dobradiças enferrujadas,
Deixar o sol entrar,
Te esquecer,
Até pensei que fosse fácil...

Passar o café forte e achar que vou enfim acordar,
Em algum mundo paralelo,
De raras paisagens,
E polinizar as flores secas de um jardim que há muito abandonei,
Fertilizar enfim minha terra,
Regar mais uma vez minha vida...

Mas te esquecer,
Até pensei que fosse fácil...

Tomar um copo de água da última chuva,
Mergulhar no mar, tentar me afogar,
E te esquecer,
Eu até pensei que fosse fácil..

Mas esqueço de viver,
E esqueço até de respirar,
Só não te deixo pra trás,
Eu nunca vou te deixar,
Mulher de enlouquecer.
 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Espumas

 

Você foi embora...
E o que era pra sempre, agora é nunca mais.
Já não falo sozinho...pois um dia você disse que eu falava mais sozinho do que com você, hoje já não há ninguém com quem conversar...
E se adormeço, quando acordo, não lembro de ter sonhado.
Resta apenas uma bruma e o cheiro do mar entrando pelas janelas...

Para distrair e me distanciar, tomo longos drinques,
E do meu cigarro, trago longos tragos,
E embora o sol ainda se ponha, dia após dia,
Vivo um mesmo entardecer, saindo e entrando do quarto para a varanda e de volta para o quarto, vendo os últimos raios de sol iluminarem tua poltrona, empoeirada em não te ter, empoeirado também eu e meu velho sentimento.

Vive hoje comigo, no quarto dos fundos,
Uma saudade sem medida,
Invade a casa volta e meia e quando chega,
Não me deixa lembrar da despedida.

Enquanto as ondas batem sobre a costa,
Só me pergunto onde andas e se ainda sorri teu sorriso envergonhado...com os olhos baixos e a mão na boca,
À minha frente mais uma onda se desfaz,
E apenas a espuma da saudade escorre lenta em minha nuca,
Pra nunca mais...


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

ELA DISSE: PLUMAS AO VENTO


Seria tarde demais,
Partir em disparada,
Correr atrás dos pássaros que há tempos já se foram,
E iniciar sozinha a revoada?

Por quanto tempo vou repassar as palavras não ditas,
E o gesto invisível da noite há tanto passada?

No vazio dos meus dias,
E no deserto da estrada,
Jogo plumas ao vento,
Querendo, no fundo, eu mesma, por ele, ser carregada... 

sábado, 29 de outubro de 2011

ELA DISSE: ABRE TEUS POROS



Abre teus poros à luz de um nítido querer...
Deixa o sol de dentro amanhecer,
E a onda nova te levar.
Há um lugar secreto,
De mil sonhos e cheiros,
Que te espera na próxima curva,
E a cada olhar.

Então em uma noite estrelada,
De imensa lua e fogueira,
A música dos bichos ao teu redor,
Você sentirá a plena paz se chegar.

Então vai lembrar desta interminável noite em que se deixou cair em frente ao mar,
E ao re-acordar, abriu os olhos e viu uma estrela,
E para a estrela sorriu,
E pelo teu sorriso,
A estrela se jogou,
Para te estender a mão, dizendo: Abre teus poros à luz de um nítido querer!
Sim, essa estrela sou eu...