sexta-feira, 26 de outubro de 2012

REVIV



Quero teus pés pra eu tropeçar,
Vou tentar apertar com teus dedos,
Meu reluzente nariz de palhaço,
Quero ser o brinquedo e a criança a brincar...

Quero ser a parede na qual você quer bater a cabeça, 
Teimoso,
Em cima da hora, me deixo ceder e amoleço pra não te machucar. 
Ser a parede contra a qual você irá se jogar, 
Insistente,
Me arrepender de tudo e poder te abraçar...

Sou de achar que todo o Depois é sempre tarde Demais,
Não quero ciclos e mais ciclos para exercitar minhas lições,
Eu prefiro a bala trocada, o inusitado... o TUDO de uma vez - SÓ! 

Quero na vida aquilo que se parece com coisa nenhuma...
Aquilo que não li em livro algum,
A história da qual nunca ouvi falar.

Quero ver o que vai me dizer...
Quero é ver tua cara de surpresa ao abrir os olhos pela manhã, e me ver pendurado no lustre sobre tua cama, de cabeça pra baixo, balançando e dizendo que consertei o mundo!
As teias de aranha no chão e as formigas no teto,
Verei flutuando teus lençóis de cetim,
A Frida Kahlo plantando bananeira,
Verei tuas sobrancelhas tristes, agora viradas, sorrindo gostoso, apenas pra mim!


sábado, 15 de setembro de 2012

ACID SERIES: Carlos Severbuk: O velho, o cego e o novo blues



Há anos atrás, me casara com Silvia,
Ela era mais velha que eu,
Belíssimas pernas e um sorriso que só eu fazia surgir ou só eu enxergava...
Ela era viúva, tinha herdado uma bela casa e um carro,
Alguma dureza e vontade alguma de prosseguir,
Passamos dois anos juntos,
Até que ela desistiu de uma vez,
E agora o viúvo era eu...
Ela nunca tivera filhos,
Mas seu cachorro Tony, um mastim, substituíra qualquer carência neste sentido.
Tony durou 18 anos e Silvia teve a brilhante idéia de empalhá-lo depois da insuficiência pulmonar do cão. Na sala ele ficava, plantado, sempre me olhando, duro, com aquela expressão vazia...eu tinha pavor, mas Silvia assim queria e conversava com ele, todos os dias e por vezes não podíamos sair, para não deixar Tony sozinho.
- Ele nunca vai me deixar Carlos, ele é um anjo que me protege! Jamais enterraria ele!

Quando ela se foi, eu fiquei, e Tony também. Não tive coragem de tirá-lo de lá. Sabe deus que maldição recairia sobre mim caso colocasse o Tony no lixo.
Por semanas naquela casa, era o cachorro e eu.
Litros e mais litros de vinho, pra mim.
Ele já não consumia nada, talvez apenas a mim, com aqueles olhos amarelos.

Na noite de um sábado qualquer, não sei bem o porquê,
Deixei pra trás uma sala cheia de amargura e solidão,
Aquelas negras nuvens sobre o tapete de centro,
O vento insistente, que levantava cortinas e fazia voar guardanapos usados,
As cinzas de dentro do cinzeiro que voavam sobre mim...
Meus olhos abriram embora eu não tomasse consciência do que havia em frente a eles,
Cambaleei em direção à garagem e de lá rasguei a noite com o velho Volvo preto da Silvia.
O Volvo me levava pra algum lugar que eu não sabia qual era,
No retrovisor minha boca roxa do vinho,
Procurei por cigarros no porta luvas enquanto o Volvo rodava a 110 quilômetros por hora na avenida, não encontrava...
Parei, aliás, o Volvo parou, em um bar na beira da estrada, um lugar de filme americano, coisa do tipo. Lá dentro, um velho negro, cego tocava uma música velha com sua velha gaita de boca. Meia dúzia de gente atenta, meia dúzia embriagada. Eram três e meia da manhã de um sábado qualquer.
Pedi um maço de cigarros e uma long neck a uma gorda atendente.
Sentei vendo o cego no palco, ao fundo.
Quando estava no fim da cerveja me apareceu ela, do nada!
Olhos verdes, cabelos castanhos, uns 19 anos no máximo e juízo algum.
Sentou ao meu lado e pediu um cigarro.
Quando eu ia fazer uma ‘cara de não’, ela fez uma cara de ‘você jamais me diria não’.
Eram 30 anos de diferença, mas eu jamais acrescentaria um milímetro de maturidade àquela mente.
Acendi seu cigarro.
Ela tragou fundo,
E me jogou fumaça nos olhos,
E secou minha long neck,
E dançou com sua barriga de fora em frente ao meu nariz,

Na minha vida, até então, eu não tinha planos nem desejos. Não tinha emprego, sequer dívidas. Não havia ideologia, nem mesmo medo eu tinha...mas neste momento eu tinha o piercing dela enfiado em seu umbigo e ela roçando a ponta do piercing no meu nariz.

E ao fundo, o velho blues, de um velho negro, com sua velha gaita nos lábios.
Ele tocava e cantava roucamente:

... Minha pequena dama,
Quero beber do verde blues
Que brota de você,
Vou beber tua juventude,
Enquanto o sol reclama do meu renascer...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

ACID SERIES: 34º





fiquei impressionado com uma cena que assisti hoje do filme: Apenas Uma Noite.
pausei e escrevi isso, recomendo o filme. Espero que gostem (dos dois). Abraços! Élinson


Andei te maldizendo dias e dias,
não pensava em outra coisa,
mastigava mentiras, escorregava em paradoxos,
nos quais uma parte de mim te odiava,
e a outra te queria...

Errei por caminhos inóspitos,
e cuspi nas caras dos guardiões dos becos nos quais achei que te encontraria,
nestas noites, o brilho da lua me açoitava,
e enquanto parte de mim era vergonha,
outra parte cada vez mais se inspirava...

Tinha as mãos dormentes e a boca seca,
me tornei só coração e olhos sedentos,
segui tuas pegadas e no vento te farejava,
era quando parte de mim desistia,
outra parte de mim te caçava...

Quando subi no prédio mais alto da cidade pra gritar teu nome,
parte de mim se matava,
e a outra te encontrava...
metade tua era medo,
a outra metade eu não sei.

Te apertei contra mim em um beijo,
e nos queríamos tão forte,
que quando nos transpassamos,
eu sorri com tua boca e tu choraste com minhas lágrimas...

No terraço do arranha-céu havia vento, chuva e raios
minha barba e teus cabelos,
o sexo ardente
no trigésimo quarto (a) andar

silenciosamente, parte de mim já te amava,
e a outra...
Também.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

ACID SERIES: Carlos Severbuk e o vinho




...deixou cair mais uma taça de vinho na sala de estar,
Quebrou em mil pedaços,
Não se levantou para juntar os cacos,
Não fez menção sequer,
Estava cansado, e já não lembrava do que,
Tinha a barba por fazer,
E os cabelos grisalhos e compridos demais,
E o mundo lá fora, às quatro horas da manhã não se importava,
Eles sonhavam outro lugar,
Enquanto só ele estava ali.
Foda-se, pensou, preferia assim...
Com algum sorriso nos olhos esticou o braço e pegou a garrafa,
Os últimos goles no gargalo, um beijo na boca,
Fechou os olhos para imaginar melhor...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Cor do Querer


Ela estava ali, linda,
Parecia um quadro...
De muito bom gosto,
E tantas cores,
Eu fascinado... Como se entendesse assim de pintura e outras artes,
Senti calor, senti desejo,
Senti frio e senti medo e um pouco de tristeza até,
Todos os sentimentos... Cada um de uma cor,
Pálido ali, apenas eu,
Tela branca, pronto pra ser... 


(autora do desenho em SketchBook Mobile: Mare Vilela)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

ELA DISSE: O Céu e a Terra



Quando sentiu a garoa em seu rosto, ela diminuiu o passo,
Precisava disso: Ela queria o mundo em si...
Com as nuvens no rosto, se sentia livre,
E se pudesse, ainda tiraria os sapatos,
Pois queria voar com os pés no chão...

Pensou melhor e sorrindo, descobriu que podia sim, que podia tudo!
Então parou e descalçou o pé direito e o esquerdo em seguida,
E maior liberdade não havia...

Caminhava lentamente, de braços abertos e sentindo a terra sob seus pés,
E dali em diante, mesmo confiante nos passos que dava, tomou caminhos errados,
E ainda assim seu espírito era feliz.

Ela se sentia feliz por saber que mesmo tomando caminhos mais longos e levando mais tempo pra supor o que havia entre o chão e as nuvens, aquelas gotas da chuva em sua boca, tinham  um gosto de vida!