sexta-feira, 24 de maio de 2013

Conto: O TÍTERE




Ao se despedir ela disse: um dia eu volto, mais cedo ou mais tarde.
Foi mais tarde...

Cortava os pêlos do nariz às 2:30 da manhã com uma tesoura pontiaguda.
"Eu só funciono de madrugada". Era do meu vô, a tesoura e esta frase.

Me assustei com uma buzina tão alta àquela hora, e acabei me machucando com a tesoura. A buzina era insistente, corri na janela com um pedaço de papel higiênico pendurado no nariz.
Tratava-se de um carro branco, importado, nunca o vira antes. Já quem estava em frente ao volante, abanando...como se fosse mais cedo, eu conhecia bem.

Desci cada degrau dos seis lances de escada, pensando se em outros tempos não desceria até o inferno por ela. Os tempos são outros, e continuo descendo. Por ela.
A porta do prédio me escapou das mãos, batendo com um forte estrondo, acho que não tão forte quanto meu coração, que batia entre minhas orelhas.
Ela liberou as portas, entrei, dei o sorriso que pude... Ela sorria com todos os dentes e me tirou um pedaço de papel do nariz antes de me abraçar. Que patético eu sou.

- Você não vai dizer nada?
Eu não respondi, não estava conseguindo combinar essas coisas: raciocinar, articular os pensamentos, voltar no tempo e ainda em tempo, respirar, mover o diafragma, ruminar as palavras, expulsá-las da boca.
Eram dois anos e 700 e tantos "por quês?" dentro de mim (um para cada dia do seu sumiço). Não, eu não os colocaria pra fora. Fiz silêncio, cara de paisagem e dei de ombros.

Ela sorriu de novo. Como era fácil ser ela.
Como eu queria um buraco para me enterrar.
Percebi seus lábios roxos. O habitual vinho estivera por ali.
Ela ligou o som numa estação de rock. Tirou as luvas, acendeu um cigarro, com todo o charme e falta de pressa do mundo.
Depois de expulsar a fumaça pela janela, me olhou daquele jeito sedutor só dela. Seus olhos me diziam: "não adianta fugir, sou mais certa na sua vida do que a morte e como ela, estou à sua espreita a cada esquina".
Enquanto a boca dizia:
- Você me conhece tão bem. Você sabe, estava com saudades.

E eu estava fodido, já sabia que era um fantoche nas mãos dela, desde a primeira vez. Ela era como uma droga e não havia tratamento, terapia, remédio, dormir, sumir, não havia... Mantive o silêncio, concluí que era como areia movediça, preferi então não me mexer, não resistir.
Durante o beijo intenso, pressionei meu nariz contra o dela e imediatamente senti escorrer de novo o sangue pelo rosto, pelas nossas bocas, enquanto pensava na ironia: mais uma esquina, mais uma morte, mais uma vida, desta vez ela me fizera sangrar e tudo.

"Uma paixão mais certa que a morte".

A morte era minha.
E a frase era dos olhos dela.


Élinson M. S. 23/05/13

2 comentários:

Azrhael disse...

Esse rasgo no tecido, aveludado, do carinho mostra o quão frágil é o sentimento. Por mais que seja, o coração, calejado e vacinado contra "Lascivas paixões". Por mais rígido e imponente que seja o escudo potente do sentimento, impossível não sangrar ante um amor eterno. Sangra, e junto com o sangue, se esvai devaneios, sonhos, desejos...e (h)à dois!

Azrhael disse...

Esse rasgo no tecido, aveludado, do carinho mostra o quão frágil é o sentimento. Por mais que seja, o coração, calejado e vacinado contra "Lascivas paixões". Por mais rígido e imponente que seja o escudo potente do sentimento, impossível não sangrar ante um amor eterno. Sangra, e junto com o sangue, se esvai devaneios, sonhos, desejos...e (h)à dois!