sábado, 1 de fevereiro de 2020

Chuva de Egéria – Parte 1





EGÉRIA:
substantivo feminino
1. mulher que inspira, que dá conselhos.
2. entusiasmo criador; inspiração.



- “Devia ter me agarrado com mais força naquele caixão. Quem sabe o defunto, o Varlei, tivesse me salvo da enchente...


Francisco da Maria, o Chiquinho, acordou com o sol batendo forte, rasgando suas pálpebras. O sol raiava já acima da colina do Alto Verde, lado oeste da cidade.
Pegara no sono na quadra de futebol da Praça Principal. Penso que a chamavam de Principal, por esperar que um dia a cidade de Egéria fosse crescer mais que aquilo – mas até o momento, era principal e única.

Egéria contava com menos de 2 mil habitantes em meio a um clima árido durante 10 meses do ano, no mínimo. Agosto tinha chegado e trazia consigo a esperança da chuva. Esperança nas mãos postas do povo que rezava ao santo ou aos santos que fosse, para regar seu solo, alimentar o raro gado, a escassa lavoura, recuperar o Rio Largo, com o nível de água que a essa altura do ano, se alcançasse os joelhos, eram os de alguma criança.

Essa secura da terra, se assemelhava, naquele momento, à secura da boca de Chiquinho, ao qual faltava tudo, o que comer, onde dormir, mas não faltava a garrafa de pinga que trocava por ajudar o Seuzé, dono de uma das duas vendas da cidade. Afinal sem alguma bebida, como conseguir dormir? Com aquele calor incessante no ar, aquela solidão incapacitante...Bebia mesmo, diariamente.

Chiquinho ergueu-se, organizou as calças com uma das mãos. As costas da outra, passava pela baba ressecada entre a boca e o bigode e a barba por fazer. Cambaleou, mas contou com o alambrado da quadra que o jogou de volta ao prumo. Para compensar a quadra ‘inclinada’ sob sua vista, apoiou-se mais um pouco, olhando ao redor, reconhecendo a paragem em que estava.

Pela saída lateral da quadra, logo ali, passava um trecho do Rio Largo. Decidiu que naquelas águas, regaria a aridez da boca e regaria o rio de volta, liberando da bexiga a pinga da noite passada...Arrastava pé ante pé, nos primeiros passos, que logo se endireitaram, em melhor ritmo, não era novidade amanhecer assim, firmou-se.
Diante do Rio, jogou os judiados sapatos de lado, sentindo a areia sob os pés calejados. Roçando as solas, chegou à beira, não sem desafio, com as mãos em concha, com a água escassa e límpida, extinguiu a secura da boca, suspirando, entre goles, aliviado.

De pé novamente, abriu a braguilha e apontou o membro para o rio, lembrando da infância, em que a meninada entre brincadeiras volta e meia recorria àquele mesmo trecho para mijar.

No zigue-zague da brincadeira infantil, reproduzida nesse instante, levantou os olhos e percebeu algo estranho, à cerca de uns 10 metros...Fixou o olhar, focou melhor, e assustado interrompeu-se bruscamente. Pelo ângulo que tinha, pareciam-lhe dois tornozelos e um traseiro e braços estendidos, boiando. Sem pensar, correu rio adentro. E, mais próximo, teve certeza. Era um corpo!
Inclinou-se, e ainda que, com medo da familiaridade dos trajes, virou o corpo e viu o rosto do seu amigo, Varlei...

Élinson Martins

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Trabalhando na segunda parte, gente, mas a ideia já está toda aqui. Acompanhem!!


quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

A Flora e Fogo (Parte 3)




João se fora há quatro anos.
Flora sentia falta do pai, vigiando seu sono, lhe cobrindo, confortando e contando coisas lindas sobre sua mãe.
Hoje ela estava só. Cursava letras. Queria escrever sobre tudo o que sentia. Queria contar histórias que jamais viveu, queria expressar o tanto que sentia, aqueles gritos que lhe paravam na garganta, aquelas palavras de acalanto sopradas no ouvido enquanto sonhava. Aquele fogo que lhe consumia.

- Oi! Tudo bem? – Se aproximou aquela figura rara - Como você se chama?
- Flora!
- Flora... Que nome lindo! De onde vem?
Ela que era sempre fechada a tudo, sorriu sem querer: Vem de um lençol!
- Ah é? – sorria ele com todos os dentes - De um lençol, como assim?
- Ahh, longa história... - Nem ela sabia por que tinha mencionado aquilo.
- Bem, tenho tempo! Minha aula acabou mais cedo hoje. E a sua?
O calor lhe subia os cachos vermelhos, tinha mais três aulas...


- João! bem-vindo, amor!
João olhava ao redor e ouvia aquela voz que lhe acariciava.
Sonhou que perdia o controle do carro enquanto dormia ao volante.
Que dor forte sentia no peito na hora do choque contra o mar ao romper a proteção na ponte.
- João! – Ouviu novamente.
A voz ao fundo estava calma. Ele, ainda agitado.
Depois do estrondo, olhava ao redor, nas ferragens, à procura de alguém além dele. Procurava por Maria, procurava desesperadamente por Flora...
Não havia mais ninguém.
Apenas ele e o carro mergulhavam, sem amarras, pesados.
Tentava em vão abrir as portas.
Sentia muita vontade de espirrar, e o espirro não saía...teve de respirar fundo, mas a água lhe entrava pelas narinas, se afogava...não dava mais...
Dentro da sua mente, gritava: Maria, eu vou morrer! O que vai ser da Flora? eu não consigo mais ficar acordado...eu não consigo mais...
Assim ele passou por cerca de quatro anos do tempo terreno.


- Estou livre também! E seu nome, qual é?
- João Pedro! – Disse ele sem piscar nos olhos dela, sem diminuir o sorriso, por dentro dela.
Flora silenciou ao ouvir aquele nome.
Evitando que o silêncio tomasse espaço, ele continuou:
- Mas me chama de Pedro!
Ela ajeitou a pasta no ombro, como se precisasse desse movimento para que não caísse. Fosse ela, fosse a pasta...
- Será que posso te chamar de João? – Se lançou, ainda sem entender seus ímpetos.
- Se tu preferes... Pode sim! – Ele, vários raios de sol mais alto que ela, dava um jeito de lhe olhar como se estivesse a uma mesma altura, mais baixo até, sentia ela...

Deitado, João sentia seus olhos cansados arderem. Como se o calor de um vulcão os atingisse. Mas era seu olhar se refazendo. Como se renascesse.
O tempo todo agitado, à certa altura sentou-se na grama, ainda sem coragem de levantar as pálpebras:
- Não! Não posso dormir! E se ela... – gritava desesperado.
- Calma, João. – Serena na voz, Maria passava-lhe a mão pela testa suada - Calma, amor. Está tudo bem...Sou eu!
- Maria? É você?? – estupefato, João tentava vê-la, era luz demais!
- Sim, sou eu! É tua Maria, amor! Agora sim! Pode abrir teus olhos, me abraçar!


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A_Flora e Fogo (Parte 2)



Deixa vir, tente manter minha voz na superfície do seu entender, sem sair desse sono profundo.
Me ouça apenas, sei que é estranho, você nunca me viu, não sei se lembra da minha voz, minha menina, eu tenho tanto pra te falar, a vontade que tenho de te ver sorrindo quando o vento bate nos seus cabelos, é tamanha...não, não me abraça! Ainda é cedo. Embora minha saudade seja para sempre.

João observa Flora dormindo. Tão linda! Lembra em tudo sua mãe, em cada suspiro, quando se vira na cama e se acomoda, puxando com força o travesseiro para si, 'um anjo se confortando entre as nuvens', ele pensa.
João não se permite dormir, velando o sono da filha.

Como perdeu Maria, jamais de novo.
Naquele dia, desistiu de dormir, para sempre.

E vai até ela de meia em meia hora, entre olheiras e os pés arrastando, lhe testar a temperatura, com as costas da mão no rosto pequeno de menina.
É um alívio sentir que não há febre alguma. Devagar, lhe escorrem as lágrimas, como se vertessem entre as rugas, parece suor. É alegria.

- Eu te amo, pai - ainda dormindo, ela diz, quando sente o pai lhe cobrindo com um lençol florido que Maria adorava. Seu nome nasceu ali, com Maria admirando o lençol em outra noite quente, de 14 verões atrás.

- O pai te ama mais! Dorme amor...
João queria tomar qualquer sonho ruim pra si.

Um dia enfim o pai dormiu, e não adiantou chamar, ele não ouvia.

- Maria! Não sei nem por onde começar.
- João! Calma, descansa um pouco, já não faz calor...

 Ela já na superfície das águas, mas querendo ir fundo, entender.
- Espera, volta! Quem é você?

- Volto, amor! Estarei sempre aqui...

Élinson Martins 27/10/2016 (vem aí a parte 3! ;)

Link para a parte 1:

sábado, 12 de maio de 2018

D e s p e r t a r
































Abriu os olhos vagarosamente, voltou-se para o lado do banheiro, viu sob o friso da porta que já havia amanhecido. Que dia seria? Estava atrasada? Novamente...Não! Se atrasou para o trabalho ontem, hoje era sábado, no celular: 10 horas. A boca seca. 
A cama além dela, vazia.
Uma das meias no chão, a outra no pé esquerdo, preguiça, bocejo, gemido.
Levantou-se livre. Com o que sonhou? – não lembro. Talvez com ele. Uma festa, talvez, colocava o som, mexia com vinis...Pegou a toalha. Pensou em fumar um cigarro antes do banho. Resolveu que após o café seria mais gostoso.
A ducha quente, lhe aliviava as dores no corpo e lhe livrava da preguiça. Tentou não pensar em nada. Apenas sentir a água gostosa lhe escorrendo a espuma. Alguma letra de música que combinasse.
Passou o café, enquanto regava duas plantas. Uma delas, ele lhe deu. Havia dois anos, dois anos hoje. Abriu o armário, não sabia decidir se uma caneca ou uma xícara. Pegou a xícara, um pires, uma caneca. O açúcar. Levou para a mesa, pequena, na sacada, no oitavo andar, de frente para outros prédios. Buscou o café. Onde servir?
Ainda abrindo vagarosamente os pensamentos, divagou, olhando a xícara e sua base tão estreita, pensando que se não fosse o pires, a xícara estaria à mercê de qualquer toque, qualquer vento, qualquer mínima ação. Sem o pires, a xícara, poderia tombar. Ao passo que a caneca, com seu formato, toda sua larga base, nada lhe atingiria. Sozinha, passaria ilesa, por quase todas as pancadas. Se enxergou ali, caneca. Sozinha, sem pires, resistente, firme, pousada na mesa. Ela era caneca. E o café era forte.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

DEZ ANOS – Jorge (Parte II)



Cheguei hoje pela manhã, na cidade. A trabalho.
Nunca mais tinha retornado.
Acho que já contava oito, nove anos, tive de ir embora, joguei a toalha.
À tarde, encontrei um velho amigo, em frente ao monumento da praça central.
Ele me abraçou e disse: Você precisa ir nesse lugar hoje à noite. Venha, no antigo casarão, da avenida dezesseis, às 21 horas.
Cheguei na hora marcada, pedi uma dose de uísque.
Francisco não havia chegado ainda.
A banda iniciou os trabalhos.
Uma introdução com baixo e piano...esperei a voz da Nina Simone...
Tomei mais um longo gole. E subi os olhos enquanto ela subia no palco de cerca de quatro por dois metros. Um vestido vermelho. As lindas pernas negras à mostra, brilhavam.
A vocalista não era a Nina, embora negra, embora forte, embora hipnotizante, não era Nina.
Junto com as vassourinhas do baterista, emitiu a primeira nota e a reconheci.
Era Angel.


Élinson Martins - 12/10/2017

DEZ ANOS – Angel (Parte I)


Te procurei durante dez anos,
E agora, finalmente,  você chega,
Olha na minha cara,
E diz que me encontrou...
Eu estava perdida,
Na vida,
Puta,
Da vida.
Dez anos, um inferno na terra,
Seu merda, você não sabe o que é ser mulher,
E eu te amo! Ainda...
No intervalo da banda,
Passo os dedos na borda do copo,
A próxima música que vou cantar, diz que a noite pode, nunca mais acabar.
Jamais, homem nenhum, mandou em mim, nem mandará...desta vez, apenas vou me permitir te amar.
Pois quero mudar minha história.

Foram dez anos pastando, tentando te encontrar, Jorge.

Élinson Martins - 23/09/17

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Conto: O TÍTERE - FICA!





Volto,
Solto o corpo,
Vacilo, entregue.

Alguém move os dedos, puxando as cordas. Me fisga e me arranca o ar do peito.

Alterno entre um plano e outro, pulo na cama, do abismo ao colchão.
Abro os olhos, vejo o teto, pisco, fecho os olhos novamente, com força, os reabro.
Olho em volta, ainda sem ar... Ela está ali, de pé, ao lado da cama, já vestida. Me enxerga todo e está a plenos pulmões.

Não consigo decidir entre raciocinar sua beleza ou me rebelar sobre sua disposição para partir. Vou no óbvio: a beleza, partindo.
Tenho sono, e tenho raiva, ainda não sei de quem. Queria ter acordado antes, para evitar.
Ela faz isso: se mexe enquanto não percebo. Age, enquanto busco folego. Me beija sem dizer nada. Sai, enquanto procuro as palavras.
Fica a saudade, o vazio e a raiva - de mim.


- Fica!

Fica tarde demais.
E ouço a porta,
Batendo... 


Link para O Títere (parte 1)


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A_Flora e Fogo





Era ela, em vermelho. As mãos ondulavam, dançavam ao vento enquanto cantava. Eu não via mais nada. Girando, mostrava o caminho da música, sua frequência na minha, tudo o que ela me permitia perceber, beirava o divino.
Me abraça!

A mãe sonhou que subia a encosta de um morro, era tão íngreme, exigia tanto das suas pernas, lhe doíam os quadris e o bebê em sua barriga reclamava, queria vir ao mundo e a ajudar, a subir.

- Não está na hora, amor. Está tão quente... Me espera, você não está pronta, não ainda. Nem eu...

Quando chegou ao pico e olhou para baixo, era tão alto e tão fundo, e tão quente. Apenas quando apertou os olhos, e focou, pôde perceber: tratava-se de um vulcão. Com o susto, escorregou e mergulhou, rumo à lava.

O pai acordou. Era tanto calor. Mais que ele, sua esposa, grávida de vinte e oito semanas, molhada em suor, passava mal, delirava. Tentou em vão despertá-la. Ergueu-a no colo. Nada o acalmaria, queriam tanto sua primeira filha. Queria garantir o bem estar de Maria. Não conseguia. Enquanto dirigia o carro, tocava seus dedos e passava a mão em seu rosto. Ela não reagia. Deus, ele pensava: eu vou conseguir. Segura Maria.

Maria não segurou...Mas Flora nasceu.



Élinson Martins (março/2016)


sábado, 6 de agosto de 2016

ACID SERIES: Carlos Severbuk: O velho, o cego e o novo blues – Parte 5





- Serviço de quarto – Veio o grito acompanhando pancadas na porta.

Pensei em rir. Mas pensar nisso me fez perceber que rir, já era algo fora da minha realidade há tanto tempo. Ainda assim, parecia cômico perceber que a essa altura da desgraça da minha vida, eu tinha uma buceta jovem e molhada entre meus dedos e ao mesmo tempo uma bebida desejada à porta. Paraíso? Será que as horas em que passei no banheiro eram um limbo? E agora, enfim, chegara minha redenção? Eu vou morrer! É agora! Tudo me fazia crer que sim. Meu coração pulando, mais que isso, eu sentindo essa porra no meu peito batendo, como há tanto tempo não sentia. Mexo os dedos? Olhos naqueles olhos que me chamam? Sinto frio? Sinto...me arrepio...eu não conhecia mais isso. Tenho medo de machuca-la, pois não sei mais sentir, foder, com os dedos sequer.

- Deixa na porta! – gritei, com medo de assustá-la. Mas criei coragem e a olhei naqueles olhos verdes, entre abertos, lindos, indiferente, molhada.

- Você tem que assinar! – devolveram.

Caralho.
Olhei de novo pra ela, pedindo piedade, eu acho. Eu não queria quebrar, eu não queria parar. Você sabe... Não sabe?
Ela balançou a cabeça, me deixando ir. Abriu mais as pernas, tirei o dedos e levantei em gestos que pareciam levar uma vida.
Me ergui, como um prédio, aos meses, sob engenharia, arquitetura, mas materiais escassos , descalcificação, artrites, traumatismos, desistências.
Abri a porta, um rapaz, de uns 18 anos, que cumpriria dezesseis vezes melhor o meu papel ali dentro daquele quarto, com aquela garota. Os olhos intrusos, me coloquei no caminho dos seus olhos e perguntei:

- Onde assino garoto?

- Aqui senhor...

- Obrigado!

Peguei a garrafa de cima da bandeja. Fechei a porta na cara curiosa dele.
Com a garrafa na mão, tonteando no quarto, sem encontrar mesa, sem encontrar copo, abri a todo custo a garrafa. Era mesmo a bebida que pedi. Ainda assim, me faltava coragem, me faltava rumo e copo e envolto com o pingo de tesao nos meus dedos molhados com o tesao dela. Tomei um gole generoso, sedento. Caralho.
Baixei a garrafa na mão direita. Vivi. Puxei o braço, mais forte, mais firme, maior. Voltei.
Olhei ela nos olhos. Ela sorriu, e riu alto.

- Tudo bem? – perguntou.

- Ta gostoso? – sem resposta minha

- Aham – me veio, e sorri, pela primeira vez, quando foi a última vez que sorri?

- Quer?

- Quero sim! – rapidamente respondeu.

Ela se ajeitou na cama. Roupa nenhuma, o lençol escorrendo até a cintura, revelando os seios, pequenos, num sobretom tão sutil, os cabelos em volta. Cedi a garrafa, nossos dedos se tocando com sutileza, e me percebi sentindo isso, esses detalhes, como já não sentia há tanto tempo. Ela empinou a garrafa. Gole. Goles. Goles. Bebeu mais que eu, duas, três vezes. Puxei a garrafa da boca dela,

- Calma garota!

- Estou calma – riu – Agora vem! Quero beber você!!

sábado, 30 de abril de 2016

ACID SERIES: Carlos Severbuk: O velho, o cego e o novo blues – Parte 4



Abri os olhos e uma infiltração no teto, ao canto, me chamou a atenção. Úmido o teto, úmida eu enquanto descruzava as pernas. Um lençol por cima do meu corpo nu,  longe de me trazer conforto, ainda me protegia, seja lá do que for. Menos dele, que o dividia comigo. Bom dia ogro, pensei. De costas para mim, quase não me deixava ver a parede oposta. Peixe grande, largas espinhas. Precisava parar com isso! De deitar com qualquer cara que encontrasse no bar. Aos poucos me vinha a lembrança da noite anterior. O velho Vini tocando sua gaita de boca, aquele blues que mexia comigo como nenhuma outra música mexia. Meu refúgio. Ele cantava minha dor, meu vazio, meu nada. Aquilo que eu insistia em transformar em alguma coisa. Pelo visto sem sucesso...
Lembrei de como nos encontramos, o ogro e eu, sua entrada no bar, nitidamente bêbado já. Mas ele levava algo no olhar. Não sei se era apenas raiva, desassossego. Aqueles olhos me diziam alguma coisa, que ainda não sabia bem o que era. Que caralho de vida é essa que eu levo? Eu sei que uma garota de 19 anos num bar de beira de estrada, possui um poder que mulheres muito mais maduras e vividas que eu, jamais terão. E devo ser uma putinha muito esperta por isso: Passar a noite seduzindo homens frustrados para ganhar bebidas e cigarros a troco de atenção, talvez seja algo degradante. Pois bem, bem-vindo à minha vida! Mas eu não esperava mais que isso...vou lhe poupar de contar qualquer história triste. Que se foda. Me poupe do seu julgamento. Já pude concluir, há tempos, que cada um tem seu drama e que nossas atitudes refletem na vida que vivemos, bla bla bla. Já usei todas as drogas que tive ao meu alcance, já encontrei todos os tipos de filho da puta que existem para encontrar. E tomei algumas surras, eu sei. De tantos, da vida. Eu quero apenas um motivo para seguir. O fato de ainda abrir os olhos e encontrar as infiltrações nos tetos destes pulgueiros, já é suficiente, continuemos.
Agora, esse velho aqui tem algo. E estou cagando para o carro dele ou se ele tem algum lugar aonde cair morto ou não, não é essa questão. O fato é que ele parece ter uma raiva de tudo, tão grande quanto a minha. E se tivermos que desafiar o próprio diabo agora, ele parece ser um bom aliado.
Ele acordou. Não...dormiu de novo. Encontro um cigarro no criado mudo ao meu lado. Sento na cama e o acendo, sem pressa. Solto a fumaça e fico um pouco tonta. Sem novidade. Os lugares que tenho para ir me querem tanto quanto os quero. Nada. Prefiro a tontura. A tortura. Suspiro, sem pensar em nada, apago o cigarro e apago, em poucos minutos.
De lado na cama, abro os olhos e me deparo com ele me olhando. Um olhar doce, terno. Sorrio, inevitavelmente.
Em um pulo na cama, ele se vira e vomita. É o mínimo. Não o acompanho nessa, pois não tenho nada no estomago. Cerveja e mágoas, mas meu corpo se conformou com isso, faz algum tempo.

      - Você está bem? – pergunto.

      - Estou morto. Para onde devo ir?

O acho divertido, e lembro que foi isso que me atraiu, além daqueles olhos. Bom vê-los abertos. Ou quase.

      - Quem sabe para ali? – Aponto o banheiro com os olhos.

Ele vai...vagaroso, desistente, mas vai.
Eu fico...por uma eternidade, fico.
As bolhas do teto, parecem que vão ceder e cair sobre mim. Ele puxa a descarga, uma, duas, três vezes. Tenho vontade de levantar, bater na porta, ajudar. Segurar seu corpo imenso em frente à privada enquanto vomita. Mentir que vai passar. Mas não passará nunca, nunca vai passar. Fico. Quando ele sair do banheiro, me asseguro de que ele está bem e vou embora. Junto minhas roupas, lhe beijo o rosto, digo até um dia e vou embora. É isso que eu faço querido. Eu sei, nem transamos. Mas não lembraríamos de qualquer forma, amor. Isso, seu pau não levantaria, amor. Não, não quero um tostão seu, se quiser me pagar apenas o taxi até a estação eu aceito querido, claro, afinal de contas preciso ir, eu tenho minha avó para cuidar, ela está tão doente. Ela que me criou depois que meus pais morreram, amor. Um dia lhe devolvo, ela possui um seguro que vai me deixar tranquila por um bom tempo.
Encho o saco e grito:

      - Hei! Tá tudo bem aí?

      - Tá, tá tudo bem sim... – Mentiroso! Como se eu não reconhecesse o peso que tem a porra da vida, e toda aquela bebida.

      - Então volta – eu juro que vou embora se ele ficar mais um minuto lá dentro.
. . .

     - Vai anoitecer, e eu não quero ficar sozinha... – eu digo, me arrependo e não entendo de onde isso saiu.

Ele enfim sai da porra do banheiro. Tento manter minha cara decente, sorridente. É foda, não sei, mais o que sou ou sinto. Mas estou ali e ele não é um cara mau. Puta que pariu, quantas vezes disse isso para mim mesma e acabei costurando o rosto em algum pronto socorro qualquer?

Trocamos algumas palavras, ele me fez rir e pediu uma bebida para a recepção do hotel.
Me animei com a ideia. Voltei a me excitar. Ahh velho, se você soubesse...

      - Por que você ainda não foi embora, garota? – É, ele não sabia realmente.

Ele insistia, coitado, em vão, resistir, se livrar de mim.

    - Vá embora garota! – Me disse ele a uma certa altura...A frase mágica, querido, ninguém me manda embora! Todos pedem que eu fique. Assim me apaixono por você.

      - Está gostoso aqui querido. – Falei, e me espreguicei, ressaltando cada contorno meu no lençol. Ogro, quem manda aqui sou eu! Toquei de leve seu ombro...

      - Você é quem sabe! – Falou, tentando tirar minha mão. Ele acha que sabe o que está fazendo. Pensei...E sem pensar, peguei sua mão e a conduzi direto em mim, quente, molhada.


      - É, eu sei sim! – Entreguei, diante dos seus olhos.


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Parte 1

Parte 2

Parte 3





domingo, 10 de abril de 2016

ACID SERIES: Carlos Severbuk: O velho, o cego e o novo blues – Parte 3



Tudo o que eu não precisava era de incentivo para viver, não... aliás, tudo o que eu não queria era incentivo para viver. Mas puta que pariu, ela era uma mulher linda dizendo que não queria ficar sozinha ao anoitecer. Tratavam-se de duas questões cruciais para mim. Uma era: como deixar uma mulher solitária em uma cama de motel à beira da estrada? Outra, era anoitecer e ignorar que tudo o que me fazia sentir um pingo de vida ainda nessas células desistentes, acontecia quando o sol se entregava e a lua se erguia no céu.
Logo ao lado da basculante do banheiro ouvia os grilos lá fora, anunciando a chegada da noite.
Lavei minha boca mais uma vez, tentando livrar-me do gosto amargo de mim.
Sequei a água que escorria pela minha barba com uma toalha rosada, vagabunda e fedorenta. Revirava os olhos sem querer, só sentia uma fraqueza e uma tontura que me era tão familiar durante minhas ressacas. Pousei a testa sobre a porta por instantes, minha barriga se inflou, meu peito também e pelas narinas sentia algum ar invadir meu corpo. Devem chamar isso de respirar. Tentei de novo. Já não aguentava mais isso. E sem muita consciência, mas resoluto, girei a maçaneta...
Ultrapassei a porta, tentado manter o ar entrando e saindo do meu corpo, sem me desconsertar e sem perder os ritmos das lentas e mancas passadas. À esquerda ao fundo, uma porta marrom em volta das paredes mofadas. Janela nenhuma nos talvez quatro por seis do quarto. Nele não havia mais que uma cama de casal, um tapete verde imundo em forma oval e um quadro torto na parede, retratando uma ilha com um sol banhando o mar. Aquele era, provavelmente, o único sol ao qual me disporia a ver. E a última cama na qual deitaria meu corpo até que alcançasse a Glock 9mm no porta luvas do carro. Deitada, ela me olhava e sorria. Baixei os olhos logo que cruzei com os dela. Mas não em tempo:
            - Está melhor, gato?
            - Gato?
            - Hahahaha, está melhor? – Gargalhava como se não houvesse miséria no mundo.
            - Ah claro, estou... – sem limites para meu fingimento.
Alcancei o telefone, alguém que deveria ser uma gorda, mau humorada, rosnou:
            - O que que é?
            - Que bebida você tem aí? - Tentei não me intimidar.
            - Que bebida você quer? – Ela me testava.
            - Jagermeister você tem? – Rebati, sugerindo o impossível.
            - Tenho, 200 pratas a garrafa.
            - Manda uma! – Improvisei ainda sem acreditar que de fato ela tivesse.
            - Em dez minutos. Quarto 12. Você tem como pagar velho?
            - Manda logo essa merda!
Desliguei com uma pancada.
Olhei para minhas meias sujas quase escapando dos pés. Nem nos lugares mais remotos da minha imaginação eu conseguiria me sentir menos do que o pior homem da terra. Se eu estivesse sozinho, seria apenas meu exercício diário de ser um verme e querer deixar as areias das ampulhetas caírem. Mas tinha alguém atrás de mim, com os olhos nas minhas largas costas. Suspirei e gemi durante o esforço de retirar as meias. E me virando, mas não a ponto de alcançar seus olhos, mandei:
            - Por que você ainda não foi embora, garota?
            - Você quer que eu vá embora?
            - Não sei nem porque você veio – tentava me manter insuportável.
            - Você que insistiu querido... – eu era querido então. Estava dando tudo errado.
            Fiz minha mais maldita expressão, agora buscando seus olhos, mas me desarmando com os doces olhos verdes dela:
            - Merda garota, você...você não deveria estar aqui...
            - Onde mais eu iria querer estar, gato? – Terminou a frase tirando o braço direito sob o lençol pousando a mão no meu ombro.
            Tentei me esquivar sem conseguir. Que filha da puta. Sou um velho derretido e fraco para esse tipo de coisa. Principalmente porque sentia verdade nela e não aquelas putices às quais estava acostumado. Conheço uma puta fácil de longe. Das mais veteranas desesperadas às mais novas oportunistas. E eu sou porra nenhuma em potencial para ocupar o tempo de qualquer uma delas.
- Vá embora garota!
- Está gostoso aqui querido. – Me sorriu espreguiçando. Comecei a questionar por dentro tudo o que achava que sabia. Era pouco. Mas era meu. Me orgulhava de tudo o que havia passado. E estou falando das merdas todas. Não estou falando de estudo em faculdade meu amigo, não estou falando de herança, de convívio com pessoas boas, de convívio familiar. Aliás, meu amigo, o caralho. Não tenho amigos e tenho orgulho de não me misturar com essa escrotidão que é a sociedade, o sistema, o coletivo, a humanidade. Eu não quero fazer parte. Eu não quero ser, eu não quero porra nenhuma, eu não sei porque estou aqui. Só sei que estou e insisto em escapar desde que nasci, mas devo ser um covarde do caralho. Isso, um covarde é o que eu sou. Do caralho.
- Você é quem sabe! – E fui tirando a mão dela do meu ombro, quando ia soltar sua mão, ela segurou a minha, levando diretamente à sua buceta, sob o lençol quase branco.
- É, eu sei sim! – Falou enquanto eu arregalava os olhos, surpreso.


- Serviço de quarto – Veio o grito acompanhando pancadas na porta.